A dois dias do referendo francês sobre a Constituição Europeia, a campanha termina esta sexta-feira com as sondagens a darem um avanço significativo ao «não» e os dois campos divididos sobre a hipótese de um segundo referendo em 2006.
«Os franceses vão exprimir-se», afirmou hoje no canal televisivo France 3 o socialista Laurent Fabius, que milita pela rejeição do Tratado Constitucional no referendo de domingo.
O resultado «terá de ser levado em conta, porque é a democracia, o voto dos eleitores» que está em causa, frisou o ex-primeiro-ministro, rejeitando a hipótese retomada hoje pelo ex-chefe de Estado francês Valéry Giscard d'Estaing de realizar uma nova consulta.
«Aos que não votarem a Constituição, ser-lhes-á pedido para o fazerem» num novo referendo a realizar até ao final de 2006, defendeu hoje o presidente da Convenção Europeia responsável pela redacção do texto do Tratado.
Esta será «a única solução se formos totalmente minoritários no sistema» - caso os restantes parceiros europeus ratifiquem o texto -, advertiu em declarações ao canal LCI, Giscard d'Estaing.
«Não vamos recomeçar o trabalho, não podemos, é demasiado pesado», justificou.
Em resposta, um dos defensores do «não», o deputado socialista Henri Emmanuelli, acusa d'Estaing de pretender explicar aos franceses que o seu voto não muda nada. «Pela segunda vez na sua vida, será preciso oferecer-lhe um desmentido claro e maciço», disse.
Emmanuelli acusa ainda o ex-Presidente de querer «sentar-se em cima da soberania do povo francês».
A hipótese de um segundo referendo foi igualmente evocada pelo presidente do Conselho Europeu em exercício, que é favorável à continuação do processo de ratificação pelos restantes países.
Em entrevista ao jornal belga Le Soir, na quinta-feira, o chefe de Governo luxemburguês, Jean-Claude Juncker, afirma que «os países que disserem «não» devem voltar a colocar a questão».
A ideia de um novo referendo é sustentada pela experiência anterior de outros países, como a Dinamarca, sobre o Tratado de Maastricht, ou a Irlanda sobre o Tratado de Nice, mas o Presidente da República não comentou ainda esta hipótese.
Na quinta-feira, Jacques Chirac voltou à televisão para tentar inverter a tendência do voto indicada pelas sondagens (10 pontos a mais para o «não», com 55 por cento das intenções de voto), apelando à «responsabilidade histórica» dos franceses para decidir o destino da França e da Europa.
No mesmo discurso, Chirac deixou entender que poderá haver alterações no Governo, ao prometer «um novo impulso na nossa acção», com políticas mais solidárias e dinâmicas perante o descontentamento mostrado durante o debate sobre o Tratado.
Na imprensa, os jornais revelam que o Presidente e alguns dos políticos que fazem campanha pelo «sim» começam a admitir a derrota, mas a campanha prossegue até ao fim em diferentes cidades do país com personalidades estrangeiras.