O presidente do Instituto da Droga e Toxicodependência, Fernando Negrão, afasta a hipótese da prescrição da cannabis para fins terapêuticos enquanto faltar um estudo mais completo sobre os possíveis efeitos colaterais.
As reticências sobre a prescrição de produtos médicos à base de plantas, em especial da cannabis, foram sublinhadas na audição parlamentar promovida, terça-feira à tarde, pelo CDS-PP.
Na semana em que o Bloco de Esquerda leva a debate a prescrição médica de cannabis para o alívio de doenças crónicas e terminais, o CDS chamou ao Parlamento vozes que recomendaram prudência nesse caminho.
Fernando Negrão, presidente do Instituto de Droga e Toxicodependência (IDT), deixou o alerta.
«A cannabis pode ser manipulada e tornar-se numa droga dura, usando esta terminologia, é uma planta ainda pouco estudada, portanto não pode nem deve ser usada para fins médicos e para além disso os seus efeitos são mal conhecidos e os que se conhecem são perigosos e de risco para quem consome», afirmou.
O presidente do IDT sublinhou que é importante estudar «o mais possível esta planta» para que, quando houver uma informação «correcta e completa acerca dela», poder ser ponderada a possibilidade de prescrição.
«Há uma diferença entre prescrever cannabis e prescrever componentes da cannabis. Relativamente aos componentes já estudados não há problema absolutamente nenhum», acrescentou Fernando Negrão.
Aceitação pode levar a entendimento incorrecto
Miguel Colecta, deputado do PSD, licenciado em farmacologia e doutorado em plantas medicinais, antevê dificuldades na aplicação desta ideia. O social-democrata lembrou que «nem sequer sabemos qual é o interesse terapêutico» dos princípios activos da cannabis.
Miguel Pinto Coelho, médico ligado ao tratamento da toxicodependência, denuncia uma estratégia oculta.
Para este médico, «está subjacente que as pessoas que estão interessadas em legalizar ou liberalizar as drogas têm neste assunto um 'Cavalo de Tróia' notável».
Manuel Pinto Coelho lembrou que a aceitação da venda de cannabis nas farmácias faz com que aos olhos das pessoas esta planta seja encarada como benéfica.
Esta posição já foi contestada pelo BE que acusa Manuel Pinto Coelho de ser cabeça cartaz da política mais conservadora do combate à toxicodependência.