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Campanha nos EUA para retirar Nobel a Egas Moniz

 
Nos EUA está em marcha uma campanha para que seja retirado o Nobel da Medicina ao médico Egas Moniz. Familiares de pacientes que foram submetidas a lobotomias exigem que a academia sueca admita que se enganou ao premiar o neurologista português.

Paralelamente, um novo livro e um historiador médico afirmam que esta intervenção cirúrgica, agora considerada «bárbara», só ajudou cerca de 10 por cento de 50 mil norte-americanos aos quais foi praticada entre meados dos anos 30 e os anos 70.

A lobotomia - usada para tratar doenças mentais, epilepsia e até dores de cabeça crónicas - foi desenvolvida em 1936 por Egas Moniz, que a praticou em pacientes com doenças psiquiátricas graves, como a esquizofrenia.

O processo consistia numa incisão em fibras nervosas que ligam o lobo frontal a outras regiões do cérebro, praticada através de orifícios feitos no crânio, daí resultando em teoria o fim do comportamento anormal do paciente.

Egas Moniz, muito respeitado a nível internacional por ter desenvolvido a angiografia cerebral, apresentou uma série de casos de sucesso em pacientes lobotomizados, o que lhe valeu a atribuição do Nobel da Medicina em 1949. O neurologista morreu em 1955.

Pacientes ficaram apáticos e ensimesmados

Já no final dos anos 30 os médicos tinham começado a relatar casos de muitos pacientes que ficaram como crianças, apáticos e ensimesmados depois da operação, e o seu uso começou a decair com o advento de medicamentos psiquiátricos eficazes em meados dos anos 50 e o uso crescente dos electrochoques.

Os novos conhecimentos sobre este procedimento cirúrgico está a levar familiares de pacientes a pedir a revogação do prémio Nobel entregue a Egas Moniz.

«Como é que se pode confiar no Comité Nobel quando não admite um erro tão terrível», interroga Christine Johnson, uma bibliotecária médica (de Levittown, Nova Iorque) que lançou uma campanha em prol da revogação do prémio.

A avó, Beulah Jones, que começou a sofrer alucinações em 1949, foi lobotomizada em 1954 depois de ser submetida sem êxito a tratamentos psiquiátricos e electrochoques, e passou o resto da vida em instituições.

Johnson, cuja avó morreu em 1989, iniciou há vários anos um site na Internet (psychosurgery.org) para criar uma rede de apoio entre familiares de pacientes lobotomizados.

«Não há nenhuma hipótese de se revogar o prémio»

Depois disso, ele um grupo de membros da campanha começaram a exigir a remoção de um artigo no site da Fundação Nobel que elogia Egas Moniz e justifica o prémio por não haver então nenhum tratamento psiquiátrico alternativo.

«Não há nenhuma hipótese de se revogar o prémio», declarou o director executivo da fundação, Michael Dohlman, que disse não se recordar de nenhum outro Nobel da Medicina que tenha sido contestado.

A Carta Nobel não contém nenhuma cláusula que preveja a revogação de um prémio e a fundação ignora habitualmente as críticas, como aconteceu quando foi atribuído a Yasser Arafat o Nobel da Paz.



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