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Os Homens do terceiro milénio

 
Com o evoluir do Homem, os chamados dentes sisos vão deixar de existir. A alimentação que temos actualmente faz com que estes deixem de ser necessários e assumam um papel de «maus da fita», devido às dores e problemas que podem causar.

Os terceiros molares costumam nascer entre os 17 e os 20 anos. São os últimos dentes a aparecer e ao mesmo tempo são os mais problemáticos de todos. Podem causam dor e outras complicações e em muitos casos têm de ser extraídos. São também conhecidos por dentes do siso. E podem ter os dias contados.

Estudos mostram que a tendência da evolução do Homem aponta para a extinção dos sisos, daqui a alguns milhões de anos, revela António Felino, presidente da Comissão Cientifica da Ordem dos Médicos Dentistas (OMD).

«Há muitas pessoas que nascem sem os sisos», explicou em declarações à TSF. Isto quer dizer que cada vez mais pessoas «sofrem» de agenesia, ou seja, o germe dentário não se forma.

Por seu lado, o antropólogo António Piedade, professor na Faculdade de Ciências de Lisboa, explica que pode ocorrer «a não-existência de dentes, mas o que é mais frequente é a existência de dentes inclusos».

Alimentos crus e cozidos

Esta tendência para perdermos os sisos está directamente relacionada com a alimentação que temos hoje em dia e com aquela que era comum entre os nossos antepassados pré-históricos.

«Com a alimentação muito macia (que temos actualmente), o órgão não faz a função e hoje, o corpo rejeita o órgão», disse António Felino, sublinhando que «há uma atrofia e o siso não tem espaço para erupcionar».

Apesar de na pré-história os sisos terem sido dentes muito úteis para mastigar alimentos - que por não serem cozinhados eram mais duros - actualmente, os terceiros molares perderam a sua função dado que para além dos alimentos serem cozinhados, são partidos em pequenas porções antes da sua ingestão.

Quando o corpo rejeita o «órgão»

Ao longo dos anos, o corpo humano vai percebendo que aloja um órgão obsoleto. O processo começa quando «homem desenvolve menos massa muscular e por isso desenvolve menos o maxilar», segundo explica o presidente da Comissão Científica da OMD. «Há uma atrofia porque o órgão desenvolve menos», acrescentou.

Depois, a genética faz o resto. «A agenesia tem uma carga genética muito grande. Pode afectar não só o indivíduo mas também determinadas famílias», explicou António Felino, sublinhando que «o meio (e a alimentação) também são muito importante».

Por seu lado, António Piedade defende que «alguns indivíduos têm maior ou menor capacidade de desempenhar um valor adaptativo, conseguem sobreviver ou ter mais descendentes e através deste mecanismo vão-se formar as características da população». Contudo, não podemos esquecer que «isto acontece de forma muito lenta».

Para além destas informações, e de estudos sobre a evolução da dentição, não existem dados estatísticos sobre o número de pessoas que nascem sem sisos, ou mesmo sobre as cirurgias realizadas, como revelou António Felino.

Mesmo assim, nos dias que correm já vai sendo possível cruzarmo-nos com alguns «Homens do terceiro milénio», ou seja, as pessoas que já nasceram sem dentes do siso.



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