Um grupo de cientistas de Inglaterra e de Espanha concluiu que a actividade dos sonares militares perturba a descompressão dos cetáceos, o que os leva à morte.
Investigadores do Zoo de Londres e da Universidade de Las Palmas publicam esta quinta-feira na revista «Nature» o relatório preliminar de um estudo onde se conclui que as baleias e os golfinhos também sofrem, como os humanos, do mal da descompressão, que afecta os mergulhadores.
Os cientistas fizeram autópsias a várias baleias que deram à costa nas Canárias, durante um exercício naval da NATO.
As baleias autopsiadas «tinham congestão vascular difusa, hemorragias micro-vasculares disseminadas, associadas a embolia de orgãos vitais».
«Bolhas intravasculares estavam presentes em vários órrgãos», tal como acontece com os mergulhadores, o que reafirma a ideia de que os cetáceos mortos nas Canárias sofreram do mal da rápida descompressão.
Este problema acontece nos cetáceos quando há interferências acústicas, o que leva os investigadores a sugerirem a regulação ambiental da actividade dos sonares.
Os sistemas de sonar emitem curtos impulsos de som e são desenhados para lançarem tanta energia quanto possível, direccionada em ângulos curtos. Os sistemas simples de sonar emitem só numa direcção, embora os sistemas mais avançados emitam «beeps» em múltiplas direcções.
Os sonares militares entram mesmo no comprimento de onda dos cetáceos. Se um sonar pode ter uma onda de 2 a 57 Khz, o assobio dos golfinhos e das baleias vai de 3 a 16 Khz.
Assim se pode explicar a mortalidade das baleias que deram à costa no ano passado, nas Canárias, durante o exercício Neo Tapon 2002.
Neste exercício, em Setembro de 2002, coordenado por Espanha e onde participaram os países da NATO, incluindo três navios da Armada portuguesa, deram à costa 15 baleias.
Já em Março de 2003, um exercício naval, com um poderoso sonar, da marinha dos EUA levou à morte de 16 baleias e dois golfinhos, nas Bahamas.
Entretanto, o Neo Tapon 2003, que se realizou em Junho, já não provocou a morte de cetáceos. Segundo a marinha espanhola houve uma «reorientação técnica do exercício» para a segurança do estreito de Gibraltar, numa área de 550 milhas (900 quilómetros) em torno do arquipélago das Canárias.
Mesmo assim, grupos ambientalistas, onde se destaca o Greenpeace, exigem o fim destes exercícios navais e a classificação do mar das Canárias como santuário para os cetáceos.