Os tempos são irónicos e até engraçados. No tempo do Estado Novo não se podia dizer mal do governo, e quando se dizia algo do governo era para o elogiar. Hoje em dia é quase subversivo dizer bem do governo (e particularmente deste governo do Partido Socialista).
Aquele que diz bem do governo é logo alvo dos piores epítetos: desde xuxa, boy, vendido, anda a comer à pala do povo, lambe botas, tachista, até bandido, chulo, e outros nomes nada próprios para se usarem aqui (e já tem sorte de não ir para a cadeia como preso político).
Já do Governo Sombra parece que toda a gente diz bem, mas eu como devo ser do contra vou tecer um ou outro comentário do que me parece ser o programa, e vou dizê-lo sem ironia, com toda a sinceridade: parece-me errado, por exemplo, tratar os detentores de cargos importantes de governação e de elevada responsabilidade como "o Sócrates", "o Cavaco", "o Noronha Nascimento", etc.
O artigo definido deveria ser evitado pois as pessoas em causa, pelos cargos que ocupam, merecem reverência (se não se gosta dessas pessoas não me parece que seja num programa de rádio, onde conversam jornalistas e intelectuais, o local indicado para dizer, por exemplo: "o Sócrates tem como passatempo favorito vitimizar-se", ou "o Cavaco é uma desgraça", como já ouvi).
É certo que o programa tem muita dose de humor, mas, como em tudo na vida, há limites que não devem ser ultrapassados já que os maus exemplos são os que mais facilmente se imitam.
O humor fabuloso dos Monty Python nunca usou da estratégia de fazer rir com piadas fáceis e popularuchas.
Confesso que me farta ouvir constantemente dizer mal de tudo e todos. No meu trabalho ouço o vosso programa aos sábados de manhã (uma vez que só gosto da TSF) e custa-me ouvir-vos dizer (e não são poucas as vezes): "isto está uma desgraça", "mais vale imigrarmos porque com o Cavaco e com o Sócrates não se aguenta", "a Manela Ferreira Leite é uma desgraça" - se não são palavras textuais é parecido.
Digo-vos que às vezes prefiro desligar o rádio porque para ouvir isso basta-me ir ao café perto da minha loja onde os clientes conversam sobre política... e custa-me. António Silva, 40 anos, comerciante, Barcelos